Moura Ramos Indústria Gráfica: livros, revistas, embalagens, sacolas, agendas e impressos em geral.: 18 de julho - Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

sábado, 18 de julho de 2015

18 de julho - Dia Mundial dos Veteranos de Guerra

A MULTIPLICIDADE DE MEMÓRIAS E “LUGARES DE MEMÓRIA”: O BRASIL NA GUERRA:

A participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial tem sido, na maioria das vezes, estigmatizada por debates e opiniões que menosprezam a multiplicidade dos grupos envolvidos nesse episódio da história mundial. Encontramos essas questões desde de documentários produzidos detendo-se ao grupo de pouco mais de vinte e cinco mil brasileiros que constituíram a Força Expedicionária Brasileira (FEB) e ignorando os outros tantos milhares que permaneceram na costa litorânea do Brasil, esses debates se reduzem a simples classificação do grupo como heroico ou ridículo.

Uma das obras mais críticas e rigorosas a esse respeito é o “Depoimento de Oficiais da Reserva”. Lançado pouco depois da guerra este livro enfrentou problemas inclusive com a censura getulista por conter duras críticas ao governo, Exército e, sobretudo a atuação dos comandantes da Força Expedicionária. Todos os depoentes que contribuíram para construção da referida obra se empenham a todo o momento em apontar problemas dos mais variados tipos e proporções, algumas ate descabidas, obra traz acusações ao comando que variam da negligência ao racismo existente desde a organização até a apresentação das tropas na Itália. Dessa forma, ainda que elaborada por militares brasileiros que estiveram na Guerra, essa obra assume uma postura crítica raramente encontrada nas memórias dos ex-combatentes e contradiz em vários aspectos o discurso oficial a respeito da FEB.

Do mesmo modo, William Waack quando correspondente do jornal do Brasil na Alemanha, agora já na década de 80, realizou uma pesquisa sobre o desempenho brasileiro na guerra a partir dos arquivos públicos locais. Essa pesquisa originou um livro que ainda hoje é execrado por grande parte dos veteranos e sua obra sequer consta no acervo da biblioteca da Associação Nacional dos Veteranos da FEB onde seu nome é pronunciado com indignação. Em “As duas faces da glória” Waack se refere a FEB sempre de forma grotesca, ridicularizando em vários aspectos a tropa brasileira e considerando-a como uma demonstração das limitações brasileiras, destacando uma atuação cômica e, muitas vezes, incompetente. Procurando sempre apontar que ela chegou à linha de frente italiana somente ao final do conflito, tendo enfrentado um inimigo já desgastado e que ocupava posições secundárias, ele utiliza relatórios do Exército dos EUA sobre o desempenho da FEB para alinhavar a sua obra de forma bem incisiva.

Por outro lado, a quase totalidade do material publicado sobre a o Brasil na Itália consiste em relatos feitos pelos próprios combatentes os quais, mormente são carregados de ufanismos e desprovidos de elementos críticos. Essa visão, que tende a homogeneizar sob uma perspectiva heroica os ex-combatentes é representada, sobretudo, por alguns livros de memória como o do próprio comandante da FEB que juntamente com alguns oficias de sua confiança elaboraram um extenso, descritivo e enaltecedor livro a respeito da FEB. Nessa perspectiva os militares aparecem revestidos de coragem, sabedoria, honra e amor à pátria, ou seja, apresentam, em alguns momentos, o grupo de forma mitificada e com poderes quase metafísicos. Nessas obras possíveis equívocos cometidos durante a formação, treinamento, ou atuação da Força como um todo durante ou no pós-guerra são silenciados, constando apenas os “grandes Feitos” do corpo expedicionário do Brasil.

Todavia, mesmo díspares os discursos existentes entre os opositores e os apoiadores da FEB, eles se tangem no momento em que ambos atribuem uma homogeneidade às memórias dos ex-combatentes e reduzem a participação brasileira na guerra a esses indivíduos.

Contudo, a história da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial não possui uma memória homogênea ou consolidada entre civis e/ou militares. Buscando analisar os vários significados e implicações dessa participação, esperávamos alcançar uma memória nacional sobre este tema. Todavia, quando nos voltamos às fontes, o que encontramos são fragmentações e variações nas diversas esferas que estas memórias possuem: formação, reelaboração, disputas e manutenção. Na medida em que ampliamos nossas pesquisas, encontramos muitas distinções, outrora desconhecidas, entre grupos e interesses envolvidos na formação, manutenção e divulgação das varias memórias existentes aqui no Brasil sobre a Segunda Guerra mundial.

Nesse sentido, nos deparamos com uma forte distinção entre a memória dos ex-combatentes, dos veteranos da Força Expedicionária Brasileira, dos militares da ativa e dos civis, o que torna inviável o entendimento da existência de uma memória nacional unificada sobre este evento histórico. A inexistência de uma unicidade não significa que essas memórias não se imbriquem em alguns momentos, porém, notamos em muitos outros as batalhas sutis que são travadas entre elas na disputa por sua aceitação.

Em “O Brasil na Mira de Hitler” Roberto Sander intenciona ressaltar o mal estar que se instalara na população ao perceber o agravamento e intensidade dos ataques aos navios com bandeiras brasileiras ainda em águas nacionais (Sander, 2007). Além disso, população e governo tinham nas rotas navais seu principal meio de locomoção e escoamento de produção para grandes distâncias litorâneas ou viagens internacionais. Nesse sentido, uma das dificuldades de nosso tema é delimitar o que será considerado memórias de guerra, uma vez que já a partir do posicionamento do Brasil a favor dos Aliados, o país congrega grupos que sofreram diretamente as conseqüências do conflito, como as vítimas que sobreviveram aos ataques as embarcações brasileiros. Todavia, esta é uma memória ainda pouco estudada, de militares e civis que tiveram suas vidas diretamente atingidas por uma guerra que acontecia além mar. Destarte, não é exagero falarmos da existência de uma memória desses torpedeamentos a navios e embarcações civis aqui no litoral nesse período

Deste modo, ao perceber a multiplicidade de memórias construídas a respeito da participação do Brasil na guerra, compreendemos a emergência de diversas memórias “quantos grupos existem”(Nora, 1998). Assim, nessa dissertação será privilegiado o estudo das memórias de indivíduos que atuaram de alguma forma na zona de guerra brasileira que se estendia do litoral até o Teatro de Operações do Mediterrânico. Optamos ainda por analisar as disputas existentes entre aquelas memórias que possuem mais popularidade em comparação a outras menos lembradas ou esquecidas.

DISTINÇÕES DAS MEMÓRIAS

Grande parte do material existente sobre a participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial se reduz a FEB. Documentários, fotos, imagens da época ou livros de memórias com diferentes abordagens, sempre acabam por reduzir seus comentários à boa ou má atuação desse grupo, a formação que tiveram ou a atitudes displicentes dos governos brasileiro e americano durante sua criação aqui no Brasil e atuação no “Teatro de Operações Italiano”.

Porém, seria um equívoco reduzir a entrada do Brasil na guerra ao simples envio de uma Divisão Expedicionária. Para além disso, o Brasil na guerra não se refere apenas aos 25.334 brasileiros que compuseram a FEB e sim a um incontável número de brasileiros que participaram de formas distintas das operações de guerra dentro e fora do território brasileiro. Diz respeito ainda a um crescimento, modernização e mudança considerável das Forças Armadas, uma maior comunicação entre as mais distantes regiões do país, bem como uma maior valorização da região nordeste pelo governo federal como ponto estratégico para segurança nacional.

Mesmo possuindo diferentes concepções, experiências e visões sobre o que é estar numa guerra, os brasileiros expedicionários foram legalmente igualados àqueles outros, militares e civis, que de alguma forma participaram das “operações de guerra”. Após 1945, acompanhamos no Brasil o desenvolvimento de uma legislação criada para atender a determinadas pressões que surgiram com o retorno e desmobilização da FEB que concede direitos praticamente iguais tanto aos que lutaram contra os alemães na Europa quanto aos que combateram apenas a ideia do inimigo e o medo da invasão de nosso território.

Não é precipitado afirmar que houve uma demora em legislar para atender às necessidades dos combatentes, sobretudo daqueles que regressavam da Itália na figura do ex-militar, ex-expedicionário e ex-combatente. Quando regressaram ao Brasil, não havia leis que os amparassem e, este grupo, que voluntariamente ou não, deixou no Brasil família, amigos, emprego e um estado emocional que jamais seria recuperado ficou abandonado à própria sorte. Assim, acompanhar a trajetória dessas leis e decretos é fundamental para que compreendamos algumas posturas posteriormente assumidas por grande parte dos expedicionários.

PRATICAS DE DISTINÇÃO: VETERANOS versus EX-COMBATENTES

A heterogeneidade do grupo “ex-combatente” transcende a formalidade das denominações e abarca uma disputa interna de poder, em que cada grupo assume práticas próprias a fim de enaltecer sua importância e garantir a sobrevivência de suas memórias. Essa disputa se materializou de várias formas ao longo dos anos, no entanto, as mais perceptíveis se referem à formação de diferentes associações e à prática de variados métodos de distinção que o grupo, sobretudo dos veteranos, adota para com os ex-combatentes praieiros e a sociedade.

Especificamente no caso de Pernambuco, encontramos algumas práticas bastante peculiares de reafirmação da identidade e garantia de um espaço na memória coletiva. Durante a Segunda Guerra, Pernambuco desenvolveu importante papel tanto por ser um estado litorâneo, com um dos portos mais importantes do país, quanto por contribuir com grande efetivo para o patrulhamento e vigilância do litoral.

Nesse sentido, observamos na cidade de Recife a existência de duas associações: Associação de Ex-Combatentes e Associação Nacional de Veteranos da FEB. A coexistência dessas instituições num mesmo espaço urbano nos possibilita acompanhar, sobretudo em datas comemorativas, como o dia Sete de Setembro, uma intensa materialização dessa disputa

Devido à idade já avançada desses militares e ex-militares e civis ex-combatentes, eles desfilam em caminhões do Exército disponibilizados especialmente para este fim. No momento de assumirem seus lugares para o desfile, a separação é visível no heterogêneo grupo dos outrora combatentes. Assim, durante o desfile, eles se utilizam de dois caminhões distintos onde se lê “Veterano da FEB” em um e “Ex-Combatentes” no outro. No primeiro caminhão, que não possui mais do que 12 indivíduos, todos os senhores vão sentados se levantando vez por outra para acenar à população civil que presencia o desfile e os aplaude, indistintamente, sem compreender que não se trata de um mesmo grupo. No segundo, incomparavelmente mais cheio, os senhores já idosos se amontoam de pé por não haver assento disponível para todos.

Analisando este quadro percebemos uma recusa dos expedicionários que foram à Itália em desfilar junto com os chamados “praieiros”, mesmo que silenciosa, pois não presenciamos nenhum tipo de cobrança dos veteranos. Por outro lado, notamos uma acomodação destes outros em não contestar a situação apresentada, seja por não se perceberem meritosamente iguais, seja por não se sentirem parte do grupo.

Além disso, o toque de presença foi obrigatoriamente instituído em janeiro de 2005 e, a partir de então, todas as formaturas militares dos dias 21 de fevereiro (Monte Castelo), 5 de março (Castelnuovo), 14 de abril (Montese), 28 de abril (Fornovo) e 8 de maio (Dia da Vitória) deveriam ser precedidas do anúncio da presença dos ex-combatentes, caso houvesse algum presente. Com o a finalidade exclusiva de assinalar a presença de ex-combatentes em solenidades comemorativas das datas significativas da FEB o toque não faz distinção direta entre veteranos e “praieiros”, todavia, as datas comemorativas são sempre referentes à Força Expedicionária Brasileira. Há ainda dois outros aspectos que não podemos ignorar no tocante ao papel direto do Exército em consolidar a memória da FEB e de seus representantes.

O primeiro deles se relaciona ao número de museus mantidos dentro de algumas Organizações Militares (O.M.), ou ainda, mantido por elas, para exaltar a memória da FEB através da exibição de força e poder. São João Del-Rei, Caçapava, Rio de janeiro, Olinda, estas são algumas cidade brasileiras onde os quartéis possuem um museu que resguarda, concomitantemente, a história da O.M. e a memória da FEB. Medalhas, canhões, metralhadoras e incontáveis fotografias dos combatentes da FEB na Itália enfeitam as paredes desses museus. Dificilmente encontramos nesses espaços alguma referência ao patrulhamento do litoral, treinamento ou expectativa dos militares que ficaram no Brasil.

O segundo motivo se relaciona a inexistência de obras publicadas por ex-combatentes pela Biblioteca do Exército Editora em contrapartida ao grande número de publicações de memórias e autobiografias de veteranos de guerra. A história da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial conta com um grande número de obras não acadêmicas a seu respeito. Se por um lado, somente com muita dificuldade, conseguimos encontrar alguns trabalhos desenvolvidos por historiadores sobre este tema, por outro, percebemos muitas publicações de militares e ex-militares, geralmente autobiográficas, que abordam a experiência brasileira na guerra. Grande parte dessas obras foi produzida por ex-combatentes e editadas, em sua grande maioria, pela Bibliex, demonstrando um maior empenho dessa força e seus respectivos segmentos, em zelarem pela sobrevivência, construção e até mesmo unificação de uma memória a respeito deste evento histórico.

Contudo, o Exército não parece ter tido muito sucesso nesse intento, uma vez que pouco ou nenhum conhecimento sobre este assunto pode ser percebido, entre os próprios militares, mas, sobretudo entre civis. Apesar da contribuição da Marinha e da Aeronáutica no conflito, nos referimos ao Exército, pois a identidade entre essa instituição militar e os ex-combatentes foi tão intensa e pública, que se tornou comum referir-se aos “pracinhas” e ao Exército como se fosse uma coisa só. De qualquer modo, o desconhecimento das pessoas sobre o assunto sobeja os aspectos técnicos e envolve desde o número de brasileiros que compuseram a FEB -pois grande parte das pessoas se surpreende com o número superior a vinte e cinco mil indivíduos- até o desamparo a que foram submetidos muitos desses ex-combatentes, uma vez passada a efusividade do retorno.

LUGARES DE MEMORIA VETERANA AS ASSOCIAÇÕES

Entendemos as associações como as principais “guardiãs da memória” da Força Expedicionária Brasileira e algumas sessões regionais da ANVFEB, como a de Pernambuco, localizada na cidade de Olinda, ainda promovem encontros semanais e mensais com seus associados e “simpatizantes”.

Nessa associação, com o objetivo principal de se divertir, alguns integrantes se encontram na Sede da Associação onde se juntam em torno de uma mesa de dominó e, apenas pouco antes do horário de fechamento da associação, cuidam da parte burocrática que a administração da entidade exige. Esse ritual se repete comumente nas tardes de segunda, quarta e sexta. Assim, ao mesmo tempo em que desfrutam da presença dos companheiros de outrora, abordam diversos assuntos como os problemas estruturais e financeiros da própria associação. Passam a tarde fazendo pilhérias uns com os outros sobre suas vidas pessoais e histórias da guerra que são constantemente reelaboradas. Halbachws afirmara que só há lembrança quando algo ou alguém nos remete a ela. Nesse sentido, compreendemos que, no momento em que aqueles senhores desfrutam da companhia um do outro, partilham idéias e conversam sobre suas memórias, eles estão constantemente reafirmando e reelaborando sua identidade veterana.

Especificamente nas reuniões mensais da ANVFEB da cidade de Olinda, o clima é de absoluta confraternização e rememoração de certas práticas comuns aos militares e ex-militares expedicionários, como cantar a canção dos expedicionários. Os associados geralmente levam suas esposas, netos, amigos e convidados ás sessões que ocorrem no primeiro sábado de todo mês. Ao chegar na Sede, os convidados optam em se dirigir à sala de reuniões, onde ficam os veteranos e militares convidados ou ao salão de festas, onde geralmente ficam as mulheres e familiares trocando experiências diversas. Na sala de reuniões, o número de pessoas geralmente é bem menor, pois poucos convidados comparecem e o número de veteranos raramente ultrapassa quinze, uma vez que grande parte deles faleceu ou se encontram adoentados e impossibilitados de comparecer às sessões.

A reunião se inicia com a leitura da ata da reunião anterior, que vai a votação entre os associados, que a aprovam ou não. Em seguida, são lidos os convites feitos aos veteranos para formaturas comemorativas de diversas Organizações Militares(O.M.) e o presidente lhes conta detalhadamente como foi recepcionado pelos comandantes em cada formatura militar que pôde comparecer lhes representando. Leem-se ainda os aniversariantes e óbitos do mês e, vez por outra, são entregues medalhas a indivíduos que fizeram algo representativo para a associação. Os agraciados geralmente são militares do Exército, os quais se orgulham de ostentar quaisquer das medalha que podem ser concedidas pelas associações, como a medalha Aspirante Mega, soldado José Vieria, Sargento Max Wolf e outras. A concessão dessas medalhas pode ocorrer tanto na própria Sede da Associação, durante essa sessão mensal, quanto em uma solenidade especial na Organização Militar original do agraciado. Em seguida, o uso da palavra é disponibilizado aos veteranos que, mormente, fazem uso dela com a finalidade de rememorar fatos passados na Itália, abordar o descaso do governo com as Forças Armadas ou reclamar da falta de valorização da memória da FEB. Essas reuniões têm duração média de uma hora e meia e terminam com a Canção dos Expedicionários proferida por todos ali presentes de pé e em posição de sentido, quando muitos deles se emocionam e não mais reprimem suas lágrimas.

OS EX-COMBATENTES - Lembranças da Praia

Canhões, militares, treinamentos pesados, toque de recolher, patrulha, medo, privação. Ao contrário do que nos ocorre quando tentamos pensar em nossas lembranças da praia, as que abordaremos aqui nem sempre são doces e divertidas como o título pode sugerir. As memórias dos ex-combatentes incumbidos de proteger o litoral brasileiro no caso de um possível ataque nazista geralmente se enfocam no cotidiano inebriado de responsabilidade, tensão e medo.

Há uma grande dificuldade em encontrarmos relatos ou autobiografias escritos e publicados por estes ex-combatentes, o que dificulta nossa compreensão sobre as funções desempenhadas e as experiências vividas por este grupo. Tal escassez nos permite inferir um possível indício de desvalorização dessas memórias por parte do próprio Exército, uma vez que, na Biblioteca do Exército, principal publicadora dos livros sobre a experiência brasileira na Segunda Guerra Mundial, não constam obras escritas por este segmento dos ex-combatentes. Além disso, podemos entender essa lacuna como a existência de um sentimento de ilegitimidade desse grupo que os embaraçou a ponto de impedir-lhes de compartilhar com o leitor a sua representação da guerra através da escrita de suas memórias. Refletimos sobre isso, principalmente, pelo fato de existirem entre os veteranos muitas publicações custeadas por eles mesmos, tamanha vontade de memória que possuem. No entanto, entre os praieiros temos dois exemplos pernambucanos que, devido às suas singularidades, merecem nossa análise mais detida: Sr Odemir e Sr Nascimento.

O primeiro deles, mesmo não possuindo o diploma “Medalha de Campanha”, atributo único pra pertencer a ANVFEB, se associou a esta e foi além: exerceu o cargo da vice-presidência na regional de Pernambuco. Apesar de ser uma associação apenas de veteranos da FEB, o ex-combatente Odemir está sempre presente nas reuniões mensais e nos entretenimentos semanais. Porém, desde nosso primeiro contato, quando havíamos ido pedir autorização dos pracinhas para freqüentar todas as suas reuniões para conhecer o cotidiano daquela associação e seus membros, ele logo pediu a palavra para formalizar sua posição. Seguiu-se então um longo esclarecimento por parte dele sobre sua condição de ser “apenas um ex-combatente”, que contribuíra para o patrulhamento do litoral mas que não tinha tido o prazer de representar seu país em solo italiano. Sua explicação era observada e interrompida pelos seus companheiros que faziam as mais diversas brincadeiras sobre ele ter ficado na praia tomando água de coco.

O segundo deles, Sr. Nascimento, é o exemplo maior de um ex-combatente que valoriza e faz questão de ver valorizada a sua posição, sua historia e suas experiências. Incomumente, tivemos acesso a um relato de memória escrito pelo soldado Manoel do Nascimento Silvano encontrado na biblioteca do 7º- Grupo de Artilharia de Campanha por ter sido enviado pelo próprio autor ao atual comandante. Construído de forma rudimentar o relato apresenta erros de português graves e frases muitas vezes incoerentes, mas que demonstram um forte desejo desse senhor em continuar vinculado à instituição e a memória militar, além de ostentar orgulhosamente uma identidade castrense.

Assim, se por um lado temos os ex-combatentes exaltando sua importância devido à vivência de um tenso cotidiano no litoral durante a guerra, por outro lado temos os veteranos descrevendo os aspectos diversos de sua experiência de guerra, as tristezas, alegrias e responsabilidades ultra mar. É importante ressaltar que mesmo dentro de cada segmento, seja dos ex-combatentes, seja dos veteranos, o que existe é uma homogeneidade relativa, pois se constituem de pessoas com experiências próximas, mas que foram sentidas e vivenciadas de forma única.

Perceber as estratégias de construção e manutenção de uma memória sobre a participação brasileira na Segunda Guerra Mundial implica estar em contato freqüente com a heterogeneidade de fontes, de percepções e métodos de pesquisa. Significa tanto trabalhar com grande variedade de fontes históricas já existentes, como lançar mão de novos métodos de construção das mesmas.

A definição ou entendimento do que deve ser considerado fonte de pesquisa varia de acordo com nossas crenças teórico-metodológicas, uma vez que historiadores com posturas teóricas diferentes certamente tecerão divergentes comentários sobre a legitimidade ou não, por exemplo, de um relato oral como fonte histórica. Assim, acreditamos que o historiador acolhe como fontes aquilo que ele entende que contribuirá para a construção do conhecimento histórico do assunto o qual ele se propõe a investigar, ainda que este acolhimento seja relativo, tanto às suas convicções teóricas, quanto ao seu objetivo de pesquisa.

Deste modo, quando escolhemos trabalhar um objeto, nos dispomos a observá-lo pelos mais diversos ângulos possíveis, sem, no entanto, pretender abarcar qualquer tipo de totalidade de um dado acontecimento, abordando assim, as mais diversas representações existentes sobre ele, de acordo com as pertinências próprias ao oficio do historiador.

Destarte, acreditamos que a variedade das fontes se faz essencial para nossa pesquisa, posto que ela demonstra a complexidade do nosso objeto de estudo e nos convida ao desafio de novas abordagens, como observação de vídeos, aplicação de questionários, coleta e análise de entrevistas. Assim, tudo aquilo que nos oferece informações sobre este período, independente da ótica, da origem do documento ou das informações, sejam elas visuais, auditivas ou escritas, vem sendo percebido como fonte legítima para nossa pesquisa.

BIBLIOGRAFIA

ARAUJO, Braz José de; LEONZO, Nanci (coords.). História Militar Brasileira: Apresentação de projeto e síntese de bibliografia. São Paulo: Universidade de São Paulo/ NAIPPE, 2000, p. 9-54.

CABRAL, Francisco. Um Batalhão no Monte Castelo. São Paulo: Universidade de São Paulo, Tese de Doutorado, 1982.

CERTEAU, Michel de. A escrita da história. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2002. CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil; Lisboa: Difel, 1990.

FERRAZ, Francisco César Alves. A guerra que não acabou: A reintegração social dos veteranos da força expedicionária brasileira, 1945-2000. FFLCH, História/ Universidade de São Paulo, tese de doutorado, 2003.

HALBWACHS, Maurice. A Memória Coletiva. São Paulo: vértice, editora Revista dos Tribunais. 1990. p. 25

LINS, Maria de Lourdes Ferreira. A Força Expedicionária Brasileira: uma tentativa de interpretação. São Paulo: Universidade de São Paulo, Dissertação de Mestrado, 1972 (publicada em 1975 pela editora Unidas, de São Paulo);

MAXIMINIANO, César Campiani. Onde Estão Nossos Heróis – Uma breve história dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial. São Paulo: Edição do Autor, 1995.

MEIRA MATTOS, Carlos de. O Marechal Mascarenhas de Moraes e sua época. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1983, 2 vols.

MORAES, J.B. Mascarenhas de. Memórias / Marechal J.B. Mascarenhas de Moraes; 2aed. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1984 p.130)

NEVES, Luis F.da Silva. A FEB – Força Expedicionária Brasileira: uma perspectiva histórica. 1992. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1992.

NORRA, Pierre. Entre memória e história: a problemática dos lugares. In: Projeto história: revista do Programa de Estudos Pós-graduados em História e do Departamento de História da Pontifica Universidade Católica de São Paulo n. 17. São Paulo: EDUC, 1998.

PALHARES, ten. Gentil. DE SÃO JOÃO Del-REI AO VALE DO PÓ: documentário histórico das ações do 11o-, 6o- e 1o- RI. São João Del-Rei: Gráfica Diário do Comércio. 1951.

SANDER, Roberto. O Brasil na Mira de Hitler: a história do afundamento de navios brasileiros pelos nazistas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007.

SILVEIRA, Joaquim Xavier da. A FEB por um Soldado. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército Ed., 2001

Fonte: www.abed-defesa.org

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Deixe o seu comentário.